Entre Pits Especial #27- Luc Monteiro Parte 3

22 de maio de 2020

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Colaboradores Planeta Velocidade

Voltamos com a última parte dessa entrevista especial com o grande Luc Monteiro, onde ele fala sobre a Gold Classic, categoria desenvolvida por ele.

Colaboração:
Keko Gomes
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Revisado Escrito por Francisco Brasil

Planeta Velocidade – Primeiramente o que seria, e como classificaria essa incrível categoria que é a Gold Classic?

Luc Monteiro – Ela na verdade não traz nada de novo, não foi invenção nossa. Coloco no plural porque o Edson Massaro, que é o promotor da Cascavel de Ouro, participou da coisa toda no início. Fazia muito tempo que eu queria ver essa categoria na pista em Cascavel. Desde 2004, quando fui a Interlagos para uma etapa da Pick-up Racing e vi a corrida da Classic Cup. A Gold Classic é, na verdade, a junção dos regulamentos das categorias de carros clássicos e antigos que já existem nos regionais, basicamente os de São Paulo e do Rio Grande do Sul, e Minas Gerais também entrou nesse assunto a partir da construção do autódromo de Curvelo. No Paraná não existia um campeonato assim, mas já havia a Speed Fusca e a Turismo 5000, dos Omega. Tudo isso foi colocado na mesa e organizado de forma a termos um regulamento que contemplasse todo mundo, com subdivisão em categorias de acordo com os carros. É basicamente isso. Uma receita muito simples, até.

Foto Vanderlei Soares

PV – A Gold Classic conta com o maior grid do Brasil atualmente, foi a preliminar da Cascavel de Ouro em 2018 e 2019 e vai ser a categoria suporte da Sprint Race em 2020, além de fazer novamente a preliminar da Cascavel de Ouro esse ano. O que essas parcerias trazem de benefício para a categoria?

LM – O maior grid ainda é o da Cascavel de Ouro, mas estamos na cola (risos). A operação de realização de um evento de automobilismo é complexa e cara, a Gold Classic ainda não tem maturidade financeira para se atrever a realizar suas etapas sozinha. O melhor dessas parcerias é pegarmos um evento pronto. Isso não é demérito algum. Pelo contrário, vejo como um voto de confiança dos promotores no potencial que a categoria tem. No passado cometemos a boa loucura de arriscar uma edição em Interlagos. É o principal autódromo do Brasil, e também o mais complicado para se fazer um evento, por inúmeros motivos. Trilhamos o caminho mais fácil, que foi a parceria com o Interlagos Motor Clube para incluir a Gold Classic em uma etapa do Paulista de Automobilismo. Foi uma negociação metódica e complicada, porque o Endurance Brasil teria uma etapa no mesmo dia no Velo Città e eu já sabia que haveria um esforço da associação de pilotos deles para mudar essa corrida para Interlagos – como de fato acabaria acontecendo. E a Turismo Nacional também tinha em seu calendário uma etapa em Interlagos naquela data, embora as bases ainda não estivessem acertadas. O temor do clube era que poderiam faltar tempo e espaço para todo mundo, até porque uma etapa normal do Paulista, mesmo sem eventos visitantes, já tem uma programação bastante intensa. O Claudinho Vieira teve uma habilidade monstruosa para acomodar todo mundo nos boxes e no cronograma. No nosso caso, como sempre faço questão de tratar as coisas com bastante antecedência, ficamos com as tendas que estavam montadas pela prefeitura na reta do traçado antigo, logo depois a Curva do Sargento. Ficamos muitíssimo bem acomodados, conseguimos encaixar três treinos livres na programação e duas belas corridas no sábado do evento. Ah, sim, o Endurance Brasil e a Turismo Nacional também conseguiram seus espaços no evento. Para 2020, a parceria entre GT Sprint Race e Gold Classic reflete só o ótimo convívio que tenho com o Thiago Marques desde que ele criou a Sprint em 2012 – sou narrador da categoria desde então. Um dos pontos da parceria estava na formatação de um evento cada vez mais atrativo para o público. Bem, por tudo que está acontecendo agora nós obviamente não teremos público nos próximos eventos, o que não quer dizer que tenhamos parado de pôr as ideias no papel e de deixá-las devidamente discutidas para quando chegar o momento e transferi-las do papel para os autódromos e para a mídia.

Foto Vanderlei Soares

PV – Qual foi a maior dificuldade no início da categoria, se é que teve alguma? Porque olhando o sucesso que ela é hoje, é até difícil imaginar que possa ter tido algum empecilho.

LM – De fato, não houve grandes dificuldades porque tivemos a felicidade e ver o problema maior nascer já resolvido, que foi justamente a união dos pilotos em torno da causa. A categoria é deles, na verdade; eu não tenho um carro de corrida ou uma equipe, sequer. A dificuldade que passou a existir está na dimensão desse Brasilzão de meu Deus, porque precisamos fazer eventos da Gold Classic em mais lugares, fora do eixo Paraná-São Paulo, e a consequência imediata disso é uma operação logística que impacta o orçamento das equipes. Todos concordamos que precisamos ter uma edição no Rio Grande do Sul, por exemplo, mas imagine o que isso impactaria para as equipes de Minas. Da mesma forma, ter uma edição em Minas é uma necessidade, o que seria trágico para a operação de transporte dos gaúchos. Cito esses dois estados a título de exemplo, porque são os mais distantes entre si no mapa dos participantes da Gold Classic. Há interesse da própria rapaziada o Nordeste, e poxa, seria fantástico termos a Gold Classic num dos autódromos de lá, mas essa dificuldade com os custos seria ainda mais evidente. Um dia ainda conseguiremos levar todo mundo para lá e fazer uma maratona de corridas sucessivas em duas pistas, ou nas três. Sei lá, numa época de férias, vai todo mundo com as famílias para curtir as praias e na sexta e no sábado de cada semana nos enfiamos nos boxes para treinos e corridas. Bem, aqui já comecei a sonhar acordado. Como aconteceu em todos os passos que já demos com a história da nossa categoria.

Foto Vanderlei Soares

PV – Quando surgiu a ideia de pegar modelos históricos e icônicos do automobilismo nacional e juntar todos na mesma pista em uma única corrida? Você achou que teria todo esse sucesso?

LM – Em 2018 estávamos pensando em uma categoria para integrar a programação da própria Cascavel de Ouro e que tivesse um grid razoável, porque um ano antes tínhamos feito uma parceria com a Old Stock Race, que veio para cá fazer uma prova. Tinha tudo para ser épico, até porque a prova deles em Cascavel – duas, na verdade – valia como etapa oficial do Campeonato Paulista, que é um artifício permitido pelas regras. Mas os pilotos da Old Stock não apostaram na ideia, cada qual por seu motivo, e o número de carros na pista foi muito baixo, vieram só 10 ou 11. Em um momento da primeira corrida havia só quatro em ação. Ficou feio para nós e para eles. Aí, em 2018, começamos a pensar no assunto cedo. Quem convidaríamos? Alguma categoria de monopostos? Uma ideia que eu tinha a sugerir era a Superturismo gaúcha, uma categoria muito legal para quem corre e para quem assiste, mas não levei o assunto adiante, porque o calendário deles em reta final de campeonato tornaria a coisa inviável. Falei para o Massaro me deixar organizar uma corrida no formato da Classic e ele me chamou de doido, justamente porque o Paraná não tinha a Classic – hoje ela existe no Campeonato Curitibano. Falei que conseguiria colocar 20 carros no grid, o Massaro bateu a caneta na mesa do escritório dele e falou para mandar bala na ideia. Aí sugeri o nome “Cascavel Classic de Ouro” e ele vetou, com razão, porque faria confusão no marketing do evento. O nome “Gold Classic” foi sugestão dele, pensado na hora. Soou bem e ficou.

Foto Aneli Schuhli

PV – Falando em sucesso, a que você atribui esse sucesso tão grande da categoria?

LM – Agradeço pela observação de “sucesso tão grande”, embora não seja tudo isso. Mas não dá para negar, claro, que a Gold Classic conquistou um espaço interessante em um curto espaço de tempo, e isso tem, sim, um motivo bem claro: a união dos pilotos e equipes em torno da ideia. Isso tem um monte de fatores envolvidos. A partir do momento em que o Massaro me deu carta branca para aquela primeira edição de 2018, comecei a rabiscar bastante sobre formato, regulamento, valores. Na parte técnica pedi socorro ao Paulo Nazzari, que é craque, porque sou completamente leigo nessa parte, e o Paulo, que já estava sobrecarregado de trabalho, me apresentou depois o Rafael Schuhli, que é quem cuida dessa parte hoje. Na questão de valores, eu tinha duas opções: formatar de um jeito que me rendesse uma boa grana se a prova desse certo ou dividir esse pretenso lucro financeiro entre os pilotos em forma de uma inscrição mais em conta. Foi o que fiz, diminuí o valor de inscrição em relação ao que estava considerando, e deu certo. Lembra que a ideia era conseguir 20 carros no grid? Chegamos a ter 76 inscritos. Quando digo inscritos, falo de pilotos que depositaram o valor da inscrição. Houve uma chuva de desistências e largamos com 44 carros, foi sensacional. Não narrei aquela primeira edição porque iria participar como piloto, e no fim acabei cedendo meu carro, que veio de São Paulo, a outro parceiro, e como o acordo para narração já estava feito mantive o combinado. Fiquei assistindo da torre da direção de prova. O Gilberto Elger, que era um dos comissários desportivos, veio me cumprimentar ao fim da primeira corrida e disse “você acabou de criar um campeonato muito legal”. A ideia de campeonato não me passava pela cabeça, isso só mudou agora em 2020, mas as palavras do Giba fizeram cair a ficha. De alguma forma, a Gold Classic tinha que continuar. Outra coisa que fez diferença, por se tratar de uma prova de nível regional, é a transmissão ao vivo das corridas – sempre na internet, às vezes na televisão também, e com geração de imagens da Master TV, que nós últimos 30 ou 35 anos respondeu pelas transmissões de automobilismo de todos os campeonatos brasileiros e de alguns eventos internacionais. Nossos pilotos sabem, praticamente todos eles concordam: se por um motivo ou outro não houver viabilidade de uma transmissão ao vivo de qualidade, não tem corrida da Gold Classic. Tem mais um ponto que acho fundamental. O organizador da categoria sou eu, mas não imponho absolutamente nada. Os pontos mais críticos são decididos em conjunto com os pilotos, e eles invariavelmente são relacionados a regulamento técnico. Envolver pilotos e preparadores em discussão e regulamento técnico normalmente é pedir sarna para se coçar. No caso da Gold Classic isso tem funcionado muitíssimo bem. Claro que tudo com os devidos filtros, que também são uma preocupação dos pilotos.

Foto Aneli Schuhli

PV – Sabemos que a temporada 2020 ainda não começou, mas já existe algum plano em mente para 2021?

LM – Já, sim. Nada que tenhamos divulgado ou feito alarde, mas também nada de segredo. Quanto a 2020, é o ano em que a Gold Classic deixa de ter provas festivas para levar a efeito seu campeonato interestadual, com chancela das federações do Paraná e de São Paulo. Nosso calendário original previa três etapas, aí houve a sugestão de um grupo de pilotos para uma das provas ser de longa duração, e como já tínhamos um acordo para três eventos no formato de sempre, com duas corridas de meia hora, decidimos em conjunto que seriam quatro eventos, todos válidos para o campeonato. Curitiba, Interlagos e Cascavel com as rodadas duplas, Londrina com a corrida de duas horas. A paralisação acabou nos obrigando a rever tudo isso, então a corrida longa vai ficar para o ano que vem. Acredito bastante que conseguiremos fazer três eventos neste ano, bem escalonados com os compromissos que as equipes têm nos campeonatos regionais. Então, o primeiro plano para 2021 é a corrida longa. Outro, bem mais complexo, é a divisão do grid, e isso passa por diversas vertentes. Uma delas é que há muitas equipes investindo em seus carros visando exatamente a Gold Classic. Outra é a disparidade prevista em regulamento entre as categorias, que acaba, por exemplo, diminuindo o destaque dado na transmissão de TV às categorias de carros menos fortes. Há ainda a fase atual de resgate dos protótipos Aldee, motivada pela existência da própria Gold Classic. Inclusive o criador dos Aldee, o Almir Donato, está na nossa categoria, inscrito como piloto, e a presença dele acaba sendo um suporte espontâneo às várias equipes que estão trazendo seus Aldee de volta à vida. Somando tudo isso à perspectiva que temos de aumento do nosso contingente de carros, estamos desde o início do ano trabalhando nessa questão de separar o grid. Claro que isso só vai acontecer se cumprirmos algumas metas. Uma delas é o mínimo de 40 carros em cada grid, até porque o grid numeroso é uma das características da categoria. Isso passa também pelo contato frequente com pilotos e equipes de todos os cantos, justamente para sabermos em que pé está a posição de cada um. Uma vez isso dando certo, teremos em 2021 algo como uma reedição do que foi a Stock Paranaense dos anos 80, ou a Stock Paulista que até durou um pouco mais. Um grid para a Gold Classic, com os carros das classes Gold Speed, Turismo Light, Turismo Super e GT, e outro para a Super Gold, com as classes Premium, Super Classic e Força Livre. Isso pode acarretar um problema, que seria a necessidade de termos eventos exclusivos, sem associação com outras competições. Tudo vai ser estudado com bastante critério. A primeira exigência vai continuar sendo que os carros sejam de modelos existentes até o ano de 1993. Vai ser muito legal.

Agradecemos ao Cleiton “Keko” Gomes que fez a entrevista (via WhatsApp, respeitando o distanciamento social), e ao Luc Monteiro que foi extremamente atencioso com nossa equipe.

Para saber mais, siga as redes sociais do Luc Monteiro:

Instagram: https://instagram.com/lucmonteiro66?igshid=3t56n8ogwnk1
Facebook: https://www.facebook.com/lucmonteiro 66/

E também da Gold Classic:

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCZAzunmKg9UHcMjLHMjG1dw/featured
Instagram: https://instagram.com/goldclassic2020?igshid=u4lhqi2hvdth

Foto destaque Vanderlei Soares

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