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Entre Pits #11 – Djalma Fogaça

29 de janeiro de 2020

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Francisco Brasil

Chegamos a mais uma edição do nosso Entre Pits, e dessa vez contamos com histórias e planos de uma entidade brasileira nas pistas: Djalma Fogaça.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Revisado por Marcos Amaral

Planeta Velocidade – Para começarmos, quem é o Djalma? Como foi sua trajetória nas pistas até hoje?

Djalma Fogaça – Djalma nasceu em Sorocaba em 1963 com uma cabeça muito grande (risos), alto, bonito e humorado.

Minha história já é bastante conhecida no meio, como muitos comecei no kart no final de 82, andando em loteamentos nas ruas de Sorocaba. A primeira corrida foi em janeiro de 83 em um torneio de verão no kartódromo de Ribeirão Preto que hoje nem sei se existe ainda.

Depois disso comecei a correr com carros de turismo (Passat, Voyage, Uno) essas ratoeiras, mas o primeiro carro foi um Corcel 2 roxo, aí andei de monopostos (fórmula) de 84 a 92, nesses 8 anos fui Campeão Paulista de Fórmula Ford em 86; Campeão Brasileiro de Fórmula Ford em 88; Campeão Brasileiro em 92 de Fórmula Chevrolet (venci a primeira prova da história dessa categoria) que era preliminar do GP brasil de F1;  F3 Sul Americana em 1989 e 90; em 1991 fui quinto no Europeu de Fórmula Opel (vencendo em Imola).

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Tive uma grande carreira nos monopostos e posso seguramente dizer de boca cheia que guiei incrivelmente rápido esses carros.

Em 94 estreei na Stock Car em uma temporada completa, tinha feito uma prova em 1987 sem pretensão alguma no carro de um grande amigo de Brasília -um irmão eu diria – que é o Marco Tarrafas.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Não fui Campeão na Stock no primeiro ano que disputei por 3 voltas. Eu precisava vencer as duas baterias e o Ingo não poderia marcar nenhum ponto, o que era praticamente impossível. Venci a primeira prova e o Alemão abandonou, já na segunda corrida ele trocou o motor e largou de último, tinham 38 carros no grid nessa época, e novamente abandonou logo no começo com o motor quebrado. Eu vinha vencendo a prova com tranquilidade e há 3 voltas do fim foi meu motor que quebrou e ficamos chorando uns 30 minutos sem parar dentro dos boxes, eu e a equipe JF Racing do grande Jorge Freitas. Creio que seria um fato inédito até os dias de hoje uma equipe e piloto serem Campeões no primeiro ano disputando essa categoria.

Depois andei mais 2 anos de Stock, venci 3 corridas em 1996 com um carro que ficou marcado na cabeça dos fãs dessa categoria até os dias de hoje, o omegão preto do desodorante AXE.

Stock Car 1996 Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Não fui Campeão, mas sou o único vencedor de uma corrida em um circuito oval no Brasil, digo que ganhei 100% das corridas, só teve uma na história e fui o vencedor, então sou único (risos).

Creio q só esses fatos merecia ter uma atenção diferenciada da Stock, uma linha que fosse na galeria dos grandes pilotos, mas enfim…

Em 1997 tenho certeza que eu era o cara pra ser Campeão, tinha um dos 2 melhores preparadores da história dessa categoria, o Andreas Matheis, o outro é o Meinha. Aí já de contrato renovado com a Gessy Lever, chegou fevereiro e fui surpreendido com a saída da Gessy Lever do evento, em consequência disso também rescindiram meu contrato, isso há 3 semanas de começar o campeonato fiquei literalmente a pé.

Andreas foi um grande cara, ele tinha proposta do Xandy Negrão que não aceitava outro parceiro na equipe e pagava a vaga desse outro carro já para não ter ninguém. Mesmo assim o Andreas segurou, me ligou e deu 10 dias para que eu arrumasse o patrocínio e não ia acertar com ninguém nesse tempo. Mas eu já tinha baixado a guarda, realmente foi uma coisa que me pegou de surpresa e não tinha ânimo pra ir atrás de patrocínio algum, creio que passou uns 5 dias e liguei ao Andreas pra que não perdesse o Xandy. Assim foi feito e ali acabou minha carreira na Stock.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Sou ariano, impulsivo ao extremo, tava a pé e sem perspectiva alguma de correr, no final do ano eu tinha visto no Esporte Espetacular uma matéria com caminhões de corrida, e aquilo me chamou a atenção. Coincidiu de um amigo de Sorocaba, o Tony, que também era muito amigo do mago Aurélio Batista Félix, conversando comigo disse que queria me apresentar ao homem, respondi positivamente e fomos conversar com a fera. A princípio, ele ficou com um pé atrás, Fórmula Truck não era como qualquer categoria que você monta um carro se inscrevia e corria, precisava ser aceito pelo homem. Uns dias depois marcamos de almoçar e ele viu que eu entraria para somar e fui aceito lá.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Enfim, estou nos caminhões até hoje, já se passaram tantos anos e momentos incríveis vivi, alegrias, tristezas, glórias, decepções e muita coisa teria pra dizer de 1997 pra cá, agora mesmo minha mulher chegou aqui e perguntou, mas que textão é esse? respondi: ‘como é que vc quer que eu conte uma história de quase 40 anos em 5 linhas?’

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Uma coisa é importante dizer: no primeiro ano que fiz essa categoria fui em um evento com o Aurélio, voltando de lá ele me disse com aquele vozeirão peculiar dele: “cabeção, acredite na minha ‘catchiguria’ – ele não conseguia falar categoria (risos) – que vc vai ganhar 1 milhão de reais por ano aqui.” Logo pensei, esse cara é mais louco do que eu imagino. Não ganhei um, ganhei alguns milhões, mas aí enfrentei 2 problemas: um deles que sempre fui um bom corredor e nada administrador, tudo que ganhei eu perdi, quando digo tudo, é tudo; E o outro problema que o Gênio, o cara, literalmente o cara se foi em 2008, aí não foi só eu que perdi, perderam todos.

E assim é a vida no automobilismo, mais perdendo que ganhando para 90% do caras que vivem isso profissionalmente, mas vivendo, ou sobrevivendo eu diria.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Hoje tudo mudou, a categoria de caminhões (Copa Truck) vive uma outra realidade com a organização totalmente diferenciada e profissional da empresa Mais Brasil, sob a batuta de outro Gênio que é o Carlos Col e a extremamente competente Vanda Camacho, onde estamos alcançando patamares inimagináveis há 4 anos atrás, imaginem, a última corrida em São Paulo tinham 28 trucks no grid, uma loucura. 

PV – Como você concilia a carreira de piloto com a de dono de equipe?

DF – Difícil, tentei passar essa bola ao Fábio, mas não funcionou, mesmo com experiência isso não funciona. Então ou o cara é chefe de equipe ou piloto, as duas coisas pra fazer bem feito não dá, até dá, mas teria que contratar um profissional com muito conhecimento e hoje não existe isso no mercado, os que existem custam altos valores e são disputados por muitos, essa é a real.

Foto Divulgação/Internet

PV – Em vídeo recente, você comentou que pretende não correr esse ano para se dedicar a gerenciar sua equipe, mas que isso impacta em patrocínio. Ao tomar a decisão, você pensa em fazer uma corrida de “despedida” das pistas?

DF – Não, minha ideia é de atuar na Copa Truck só dirigindo a equipe, tenho certeza que iriamos mudar de patamar, o problema é que alguns patrocínios querem contar com essa aproximação que o público tem comigo, mas estamos conversando e nada decidido.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Uma coisa é certa, duas aliás, quero ver o Fábio atuando na Copa truck somente como piloto e a outra é que parar de correr eu não vou. Tenho ideia de correr na Old Stock e no Campeonato Gaúcho de turismo 1.4, se eu parar eu morro, então quero morrer antes, aí eu paro (risos). 

PV – Sua equipe está de mudança de Sorocaba-SP para Londrina-PR. Quais os motivos para essa mudança, além da proximidade da pista como você já expôs?

DF – O principal motivo é MUDAR, quando as coisas na pista ou em outro negócio não estão acontecendo bem, chega uma hora que se repetir as mesmas coisas o resultado vai ser o mesmo. Se tiver ganhando, vai seguir ganhando e se tiver perdendo, vai seguir perdendo. É aquele velho ditado, “em time que está ganhando não se mexe”, mas no que está perdendo sim, então…

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Lá iremos testar mais habitualmente, nem que não tenha um parafuso diferente pra testar, mas treino é treino, não importa a experiência que tenha, é assim que penso. 

Fora isso tem uma coisa que sempre tive como sonho fazer, e lá vou conseguir realizar.

PV – No mesmo vídeo publicado nas redes sociais, você coloca sua opinião sobre as atuais regras da Copa Truck e a, digamos, insatisfação com elas. Em seu ponto de vista, qual seria a primeira medida – a fundamental, uma vez que apenas um conjunto de regras que podem fazê-lo – que poderia ser tomada para nivelar a competição?

DF – Essa pergunta é muito interessante, os caras – quando digo os caras, são os que estão ganhando, aliás, todos na realidade, os que estão perdendo e não conseguem enxergar as coisas também – isso sem ofender ninguém, digo pelo lado positivo, de ser algo que vou dizer e seja de maneira construtiva. Isso não é F1, onde cada um constrói seu carro e as equipes têm orçamentos monstros vindo de cotas de transmissão de TV, posições de chegada no campeonato, não importa, são grandes somas de dinheiro e todos tem patrocinadores, porque é a categoria número 1 do mundo e visto por milhões e milhões de pessoas em todo canto do mundo. Aí nego acha que a Truck por ser uma categoria disputada por diversas marcas e cada qual prepara o seu também é uma F1 dos caminhões e o regulamento é igual a todos.

Pera lá meu irmão, a “tchurma” do meio pra trás estão se arrastando, hoje temos 3 grandes equipes de fábrica: estamos falando de 6 VW/MAN, 4 Mercedes-Benz, 3 Ivecos. Esses apoiados pela fábrica com toda a parte de peças de motores, câmbio, diferencial, dinheiro e engenharia envolvida.

Largada da corrida 2 (Duda Bairros/Mais Brasil)

Estamos falando de 13 caminhões, ou seja, metade do grid.

Aí eu pergunto: e os outros? e os particulares? Como vão disputar com esses caras, como é com um regulamento igual vai disputar com esses caras? esquece, não vai disputar.

Aí vão me perguntar, mas vc quer o que então, que tire o que os caras com trabalho e investimento conquistaram? Não, não quero, de maneira alguma, o que quero é discutir alguma coisa que de vantagem a um Volvo, a uma equipe sem estrutura que anda de Scania, a minha que anda com 3 Ford, é isso que discuto, que de um restritor de turbina maior a esses caras por exemplo. Outra coisa, ano passado que mudaram as regras dos pneus e todos tem que andar com pneus altos atrás. Isso acabou com a velocidade do Ford em curvas e frenagens, para tracionar enfiaram peso pra caramba atrás, qdo falo isso não to falando de 20, 30 kilos, to falando de 300 a 400 kg, entenderam? Então, pra eles o pneu alto não mudou nada, conseguem compensar com a tração do truck, no caso do Ford, se boto 200 kg que seja atrás, preciso de 150 cv a mais e isso só vou conseguir com “muuuiiito” investimento em peças e trabalho em dinamômetro ou em pista, e isso demanda uma quantidade grande de grana.

Como vou com um motor que tem ao menos uns 250 cv a menos competir com esses caras em condições iguais?

Agora pergunta ao piloto bom, digo bom, não ótimo que anda nesses caminhões se ele aceita um negócio desses, o cara dá pulo de 3 metros de altura de bravo.

Agora tenho que ficar fazendo grid ao bonitão e guiando até o que não sei pra fazer grid a esse cara?

Aí ele com certeza vai me dizer, vai investir, troque de caminhão. Mas as coisas não são assim, uma troca hoje é um ano perdido e demanda muita grana até chegar em um bom nível, então é mais fácil e mais barato esse cara ir treinar, treinar e treinar e aprender a ficar ótimo em vez de bom. Posso estar errado? Posso, mas é assim que penso.

Pergunta a qualquer piloto hoje que tenha vontade de guiar na categoria se ele que andar de Ford, Scania, Volvo e Iveco de equipe particular e vai ver a resposta.

Outra ideia que discuti foi, levar um dinamômetro de rolo e bota 800 cv em todo mundo, todas as marcas, mesmo peso na frente e mesmo peso atrás, pergunta se a turma dos 8 primeiros querem. Não querem, aí já vem um e diz que a VW vai ter vantagem porque tem o sistema de injeção Common Rail. Ué, mas hoje eles andam de que, não é Common Rail? É sim, ué, mas se é porquê vcs tomam uma luneta deles? os VW brincam de correr, fora que estão nas mão de 3 caras excepcionais como pilotos que não preciso dizer nomes, quem conhece sabe.

Isso de botar a mesma potência ia fazer com que esses caras perdessem? Claro que não, ganham porque tem melhores equipes, apoio, pilotos competentes e vão seguir vencendo, mas equilibraria e o espetáculo seria incrível ao público. É por isso que brigo, me desculpem os excessos, mas é por isso que brigo.  

Só lamento ser uma briga de um só, isso na realidade me chateia, parece que os outro não se importam, se tudo der certo podem chegar em um p8 e virar o grid largando em primeiro já basta, mas é aquele ditado, cada um, cada um.

PV – Por fim, como a equipe virá para 2020? O que podemos esperar?

DF – Depende muito do que disse acima, mas estamos muito longe dos caras, não é bater com uma vara mágica e sair disputando com esses caras.

Foto Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

primeiro temos que nos encontrar, hoje digo que não temos uma equipe, você ter um box bonito, boas marcas na parceria, carretas, sede do time decente, uniforme bonito, pintura bonita. Mesmo tendo tudo isso, você não pode dizer: tenho uma equipe.

Eu preferiria não ter nada disso e ter meus trucks disputando pau a pau com os caras, acabasse o ano e tivesse fila de empresas querendo nos apoiar ou pilotos com patrocinadores querendo andar com a gente. Então, temos que encontrar o caminho, essa é a primeira coisa a ser feita.

Outra coisa: ter parceiros bons não quer dizer que vc tenha o budget completo, então acabamos abrindo mão de investimentos que precisam e devem ser feitos para dar retorno em outra áreas que compensem e justifiquem os investimentos de seus parceiros, sejam eles quais forem.

Definido por enquanto só o Fabinho (Fogaça, filho do Djalma). Acredito muito nele, com um equipamento confiável e a cabeça voltada só pra corrida ele é f*da. Como exigir do cara na situação que foi até então, até motor o cara tá fazendo, e toda parte eletrônica também. Em 2018 a equipe era ele e o Jardes, eles mesmos carregavam e descarregavam o caminhão, montavam os boxes, ainda bem que tinha os mecas de outros times que a noite ficavam com pena e por amizade iam lá ajudar.

Aí eu pergunto, algum piloto na categoria passou por isso? Não, com certeza não, e olha que ele fez grandes corridas, mas fica difícil né, fica complicado de focar, e sem foco não anda, é impossível.

Outra coisa é certa, iremos com 2 trucks, foco total em 2 trucks, o terceiro podemos arrendar, dar uma assistência na parte eletrônica e motores, mas nesse momento não temos como ter 3 pilotos.

Pra me substituir temos trabalhado nas apresentações e reuniões de patrocínio com a Gabi Morais, uma garota que veio do kart. A ideia é que o ano passado já pudéssemos estar testando para que ela adquirisse experiência, mas não conseguimos, vamos ver como vai ficar. Serginho Ramalho também é um desejo antigo que tenho, mas nas duas situações esbarra na parte financeira e mais que nunca precisamos estar com o Budget completo, e tem um piloto muito rápido e experiente com um bom patrocínio que pode pintar também.

Vamos ver o que acontece!

Foto destaque Arquivo Pessoa/Djalma Fogaça

Francisco Brasil

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