Entre Pits #32 – Alessandra Menini

1 de setembro de 2020

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Daniel Mendes

Automobilismo, esporte este que faz muitos brasileiros vibrarem nos autódromos e também em casa ao assistir as diversas corridas que são transmitidas. Porém a velocidade também é um hobby, correr de kart em um fim de semana com os amigos é um exemplo. Mas devido a pandemia, atualmente não é possível realizar este divertimento, então uma alternativa é o automobilismo virtual, que está crescendo atualmente, esse é o caso de Alessandra Menini.
O “Entre Pits” vai falar da história de Alessandra Menini, 35 anos, moradora de Curitiba no Paraná. Piloto de Kart que agora também faz parte do grupo de mulheres que correm no automobilismo virtual. Alê vai nos contar como o automobilismo virtual a fez uma vencedora, não só das pistas, mas também da vida.

Planeta Velocidade:  Quando você começou no automobilismo virtual?

Alessandra Menini: Eu estou no automobilismo virtual desde março desse ano quando eu participei da Corrida das mulheres, que foi promovida pela F1DC em comemoração ao dia internacional da mulher. Teve uma corrida que aconteceu, se eu não me engano dia 9 de março, um dia depois do dia internacional da mulher. E foi um Grid com duas corridas de 20 minutos. Ambos os grids formados só com mulheres. Depois dessa corrida eu comecei a me interessar mais pelo automobilismo virtual.
Porque gostei da brincadeira e eu sabia que esse ano ia ser um ano sabático das pistas reais, então eu decidi me dedicar ao automobilismo virtual como um hobby, um passatempo e também não me afastando do automobilismo e da velocidade que são coisas que eu sempre gostei muito. Então comecei a me dedicar mesmo a treinos e participar de campeonatos a partir de maio desse ano.
Ou seja, dá para dizer que eu estou há três meses no automobilismo virtual. Sou bem nova de fato, né? Eu corri em março a primeira vez, mas eu comecei a treinar mesmo e participar de campeonatos foi a partir de maio.
Alessandra no automobilismo virtual – Foto – Arquivo Pessoal

Planeta Velocidade: De que forma o esporte virtual o ajudou nesse processo ao enfrentar o câncer?

Alessandra Menini: Bom Como eu disse né? Devido a doença, devido ao câncer, eu sabia que esse ano eu não ia poder pilotar no Kart Shell que era meu hobby antes, agora eu tenho dois hobbies que é automobilismo virtual e o kart. Mas então já sabia que Kart não ia dar, porque foi um câncer de mama, então eu ia ter que passar por cirurgia e todo o processo de reconstrução por conta da cirurgia que envolve não fazer esforço, não ter impacto e deixou com que o kart fosse impraticável, já que tem que fazer muita força nos braços para pilotar um Kart. E era uma coisa que eu não ia poder fazer mais esse ano, né? Até o final de todos os procedimentos cirúrgicos e completar o tratamento.
Então eu procurei o automobilismo virtual, a princípio, para manter o meu contato com o esporte, manter a minha proximidade da velocidade, continuar pilotando alguma coisa. Mas acabou que o automobilismo virtual se revelou uma coisa muito mais significativa e profunda nesse processo do enfrentamento da batalha da doença.

“O automobilismo virtual ajudou muito eu ter uma válvula de escape diante de tantas frustrações que a vida estava me trazendo. Porque não dá para dizer assim que você descobre, recebe um diagnóstico de câncer, e acha tudo lindo maravilhoso, né? No começo é um processo complicado, você tem que digerir todas as notícias que você recebeu. Então o automobilismo virtual veio como uma distração para mim, como uma maneira de eu me distrair dos problemas reais, por assim dizer, e continuar fazendo o que eu sempre achei muito prazeroso que é pilotar”.

Planeta Velocidade: Pensou em desistir de tudo, ao saber da doença?

Alessandra Menini: Eu preciso voltar a cinco anos atrás quando a minha mãe foi diagnosticada com câncer também, mas o câncer dela era um câncer diferente, foi um câncer no duodeno. A minha mãe teve o câncer jovem, ela tinha 55 anos, era nova, né, para ter câncer. Porque de fato o câncer não é uma doença de jovens.
E há 5 anos atrás quando a minha mãe foi diagnosticada, para mim foi uma notícia terrível. Foi um sofrimento muito grande e eu perdi o chão, não sabia o que fazer, eu às vezes pensava assim: ‘meu Deus, como que vai ser a minha vida sem a minha mãe?’ Não vai não vai ser, não tem como né? Eu tenho muito medo de perder minha mãe, eu tive muito medo do câncer.
Tive muito medo da doença e na época eu pensei, a minha mãe tá sendo uma pessoa muito forte, muito corajosa para encarar essa doença, graças a Deus na situação dela precisou só da cirurgia, ela não teve que fazer mais nenhum outro tratamento adjuvante (é aquele que inicia após uma intervenção considerada principal para a retirada do tumor, em geral a cirurgia ou, em alguns casos, a radioterapia).
Eu lembro que eu pensei. Não sei se eu aguentaria, eu não sei se eu daria conta de encarar o câncer com a braveza e a coragem que a minha mãe encarou. Achava que eu não iria sobreviver a um diagnóstico, uma notícia dessas, né? E aí, em dezembro do ano passado quando eu recebi o diagnóstico do câncer de mama, foi um golpe muito duro da vida, foi bastante inesperado. Foi bastante dolorido aceitar principalmente por causa da minha idade na época. Eu estava com 34 anos e eu pensava assim: Meu Deus, como eu com 34 anos tenho essa doença? E parecia assim que era a pior notícia que eu poderia receber naquele momento, parecia que não existia nada pior do que aquilo no mundo, né? E eu fiquei com muito medo.
Alessandra e sua família, que foi importante neste período – Foto: Arquivo Pessoal
Nessa altura eu ainda não me dedicava automobilismo virtual, eu só corria de kart, desconhecia praticamente o mundo do AV.

“Eu em momento algum pensei em desistir de tudo. Eu tive muito medo sim de encarar a doença, de encarar a cirurgia. Muita insegurança, porque haviam coisas ainda que seriam definidas após a primeira cirurgia e eu não sabia que rumo a minha vida iria tomar”.

Tive que exercitar muito a minha calma, minha paciência. É evidente que eu e a minha família tivemos que superar esse desafio, porque não foi fácil para mim. Eu sou a filha mais nova, irmã mais nova. Eu acho que foi um choque para família toda, não só irmãs, pai e mãe, mas tios, tias, primos. Mas graças ao amor deles, graças ao apoio, a força que eles sempre me deram eu não cogitei em desistir da minha vida, do meu trabalho ou de fazer as coisas que eu gosto.

Planeta Velocidade: Como a sua equipe, a Fast Lap, te ajudou neste momento difícil?

Alessandra Menini: A Fast Lap é uma equipe de Automobilismo Virtual que foi fundada pelo meu primo. Ele sempre foi bastante envolvido com automobilismo e também com o automobilismo virtual há alguns anos já. Ele deve ter aí perto de 7 a 8 anos de automobilismo virtual, mas ele não participava de campeonatos antes e começou a participar mais recentemente também, aproximadamente uns 2 a 3 anos.
E ele sendo da família em momento algum negou qualquer ajuda, qualquer auxílio que eu pedisse. Eu tenho resposta positiva dele. Meu primo tem uma vida super atribulada com esposa, filho, trabalho e ele sempre conseguiu arranjar um tempo, sempre conseguia dedicar um tempo para me ajudar numa configuração do computador, baixar tudo que eu precisasse baixar e instalar, porque são muitos detalhezinhos, né?
Então se a gente tem que baixar um mod, tinha que baixar, fazer uma atualização, enfim tudo que fosse ele sempre estava lá a postos para me ajudar. E acaba que a equipe teve todo espírito também de me ajudar. Muitos deles não sabiam do meu desafio, porque por algum tempo eu preferi deixar isso privado, deixar como um assunto de família mesmo. O Nabor (primo) sempre foi uma pessoa extremamente discreta, então ele nunca comentou nada com ninguém da equipe também, as pessoas que sabiam eram as com quem eu tinha falado.
A Fast Lap deu muito apoio a Alessandra – Foto: Arquivo Pessoal
Eu tinha contado a minha história e, conforme as pessoas sabiam do que eu estava passando, elas abriram os braços ainda mais pra mim né? Inclusive a mãe de dois pilotos da nossa equipe também passou pelo mesmo desafio de câncer de mama. A Tânia Schreiber, mãe do Wagner e do Alan Schreiber que são meus colegas de equipe, ela se prontificou a conversar comigo a me orientar, a minha acalmar e trocar experiências, né? Deixar desabafar porque obviamente existe uma revolta, existe uma raiva de você ter um diagnóstico que, querendo ou não, é limitante para sua vida.
Mas a equipe sim, conforme ela foi conhecendo a minha história, foi sabendo do que eu estava passando, eles foram sensacionais. Foram fantásticos e me auxiliaram, me apoiaram em muitas coisas e torcem muito por mim até hoje, sabe? Então a equipe me ajudou muito a manter minha cabeça erguida enquanto eu passava por essa batalha.

Planeta Velocidade: Quais são seus objetivos daqui pra frente?

Alessandra Menini: Eu tenho muitos objetivos daqui para frente. É muito engraçado, porque o que vem muito na cabeça agora é assim, a experiência toda de viver o câncer, de passar pelo tratamento, as cirurgias e encarar isso do lado de amigos e familiares, me fez enxergar que a nossa vida é mais do que trabalhar, trabalhar, trabalhar, se matar de trabalhar e não ter tempo para família, não ter tempo para os amigos não ter tempo para gente mesmo.
O que eu digo para as pessoas assim: o câncer me trouxe um aprendizado de uma vida inteira. É como se agora, aos meus 35 anos, eu já tivesse vivido 80 anos. A sensação parece que é essa sabe?
Um dos meus objetivos daqui para frente é me dedicar mais ao automobilismo virtual, melhorar no AV, conseguir me aprimorar, conseguir aprender, conseguir aos poucos ir sendo uma melhor piloto, porque eu ainda não sou uma piloto (risos). Eu sou bastante exigente, então vou me dedicar ao automobilismo virtual para conseguir ter algum destaque nas pistas.
O meu outro objetivo é ajudar as pessoas que estão passando pela mesma batalha, dar algum tipo de apoio, participar de algum trabalho voluntário relacionado ao câncer, dar apoio as famílias dos pacientes, né? Quero muito fazer isso de uma maneira voluntária, estar lá presente, ser apoio, ser ombro, ser alguém disposta a ajudar as pessoas que precisam.
E o meu outro objetivo é que a Alessandra que nasceu agora após o câncer, após o tratamento, é que essa Alessandra seja mais leve, mais feliz, mais sorridente. Que ela tenha mais compaixão e que ela consiga ter mais empatia. Realmente ser um ser humano melhor.  Esse eu acho que é o meu maior objetivo daqui para frente.

Planeta Velocidade: O que você tirou de aprendizado neste período tão difícil?

Alessandra Menini: O que eu aprendi é que muitas vezes a gente se coloca em situações – não estou falando da doença – mas às vezes a gente se coloca em situações que não são boas para nós mesmos, né? Às vezes é discutir por alguma coisa com alguém que você ama, alguém que você gosta e tudo bem. Que muitas vezes a discussão acontece porque a gente se preocupa muito. Existe um amor envolvido nessa discussão, mas às vezes as duas pessoas estão discutindo, querendo dizer a mesma coisa no final das contas.
Então acho que as lições que eu tive nesse período do câncer é justamente tentar entender mais o lado das outras pessoas, tentar ser mais compreensiva. Que nem todo mundo – não é por maldade – muitas vezes falam e fazem algumas coisas, mas elas falam e fazem certas coisas porque a maneira que elas conseguem lidar com aquilo é a maneira que elas conseguem lidar com aquele problema.
E muitas vezes não é nada pessoal, é simplesmente uma maneira que o teu interlocutor acha de “se proteger, se defender”. A gente não sabe exatamente o que, mas é muito mais da gente tentar compreender os outros, do que pedir ser compreendido, né? É isso que eu tenho tentado colocar na minha vida daqui para frente.
Por que foi desafiador para mim lidar com a minha família. Não estou dizendo de forma alguma aqui, que eles não me amam ou que eles não fizeram nada com relação a minha doença, muito pelo contrário, a minha família fez absolutamente tudo que podia para me ajudar nesse processo e ofereceu todo o amor que eles tinham para mim nesse processo.
Acabava que eu queria um pouco mais de colo, um pouco mais de acolhimento. Aquele colo de mãe, assim, que onde você só deita sua cabeça e chora e ela passa a mão na tua cabeça e diz assim: “Calma filha, vai ficar tudo bem”. Isso faltou um pouquinho do meu ponto de vista, obviamente né?

E eu não falo com nenhuma maldade, com nenhuma malícia, que não foi feito porque as pessoas não gostam de mim. Não tem nada a ver uma coisa com a outra e o processo do câncer fez eu entender isso.Às vezes o medo da doença, o medo da gente perder alguém que a gente ama faz agirmos às avessas, e eu acho que foi a maior lição que eu pude ter, conseguir enxergar mais, tentar me colocar mais no lugar dos outros. Antes de simplesmente me aborrecer, ficar com raiva, ficar brava. Ser mais carinhosa, ser mais afetuosa e mais presente, porque às vezes eles precisam muito mais disso do que a gente né? Essa foi a minha grande lição“.

A família de Alessandra Menini – Foto: Arquivo Pessoal

Planeta Velocidade: O que dizer para motivar as pessoas que passam pelo mesmo que você passou?

Alessandra Menini: Eu não sei se eu estou em condições de dizer coisas para motivar as pessoas, né? Afinal de contas quem sou eu né? Mas eu posso falar duas coisas para as pessoas que estão passando por essa batalha, ter fé. Fé em si mesmo, fé no bem, fé de que todas as pessoas que estão ao seu redor, os médicos, parentes, amigos, todos eles estão fazendo o melhor que eles podem, o melhor que eles conseguem. Acredite nisso, acredite que tudo vai dar certo. Tenha fé nisso e não deixe sua fé se abalar.
E não desista, não desista do tratamento. Vão ter dias difíceis, dias que vão ser regados a lágrimas, dias que vão ser doloridos, fisicamente ou psicologicamente. Vão ter dias que vão ser muito desafiadores para você, mas não desista. Não desista porque a recompensa vale. Terminar o tratamento traz uma alegria tão grande, uma satisfação tão grande que vale a pena, vale a pena continuar lutando, vale a pena continuar persistindo e é tudo aprendizado sim.
Tudo é uma oportunidade da gente olhar para si e ver o que que a gente pode melhorar dentro do seu ritmo, respeitar o seu momento, respeitar ali o seu escopo de ação.  Não estou dizendo para abraçar o mundo e sair achando que agora vou mudar o mundo. Não, não é isso. Mas se enxergar com humildade e ver que é possível sim a gente melhorar pequenas coisas a cada dia para o nosso bem-estar, e isso acaba refletindo nos outros. E eu digo com a maior segurança do mundo.
Hoje eu vejo que o bem que eu faço para as pessoas volta sim para mim. E volta em forma de sorrisos, volta em forma de gargalhadas, volta em forma de carinho, de abraço, de amor, de palavras de apoio e admiração. Isso tudo é muito gostoso. E o que eu mais desejo agora é que tudo isso volte novamente para as pessoas que estão ao meu redor, então eu faço questão de, em qualquer momento que eu posso elogiar, que eu possa dar força para alguém. Eu vou fazer porque o que eu recebi nesse momento tão difícil, tão delicado da minha vida é impagável. E eu acho que o mínimo hoje que eu posso fazer é retribuir dessa forma.
E claro, achar atividades que tragam satisfação, que tragam um ânimo. Coisas que você gosta de fazer então, não sei. Por exemplo, eu gosto de pintar. Então faça atividades que te proporcionam prazer porque a autoconfiança e a autoestima, elas andam lado a lado com o tratamento do câncer, principalmente para nós mulheres, né? Não estou dizendo que para os homens não aconteça, mas acaba sendo um pouco mais desafiador. Perder cabelo, perder cílios, sobrancelha, isso mexe muito com a nossa autoestima. E encontrar prazer em outras coisas, em outras atividades ajuda muito a reestruturar a tua autoestima e autoconfiança.

Superação essa é a palavra

Que exemplo de superação, que história emocionante e motivadora. O exemplo da Alessandra Menini, nos mostra o quanto a luta para vencer uma doença é desgastante e há mecanismos que fazem com que essa batalha seja vencida sim, com a ajuda dos médicos, mas também o apoio dos familiares. E ocupar a mente com hobbys pode ser um auxilio enorme nesta luta.
O que ela nos contou faz com que lembremos da importância de aproveitarmos o momento, e sermos melhores pessoas para com os outros. Claro que não somos perfeitos e vamos errar sim, mas sempre buscando a melhor relação com todos.
Nós do Planeta Velocidade queremos agradecer tanto a Alessandra Menini, quanto a nossa parceira a liga Warm-Up E-sports por nos apresentar essa história motivadora e de superação, vamos juntos nesta caminhada rumo a felicidade.

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