Entre Pits #45: DR. DINO ALTMANN

25 de janeiro de 2021

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Marcio de Luca

Realizar entrevistas é sempre algo gratificante, pois nos dá a oportunidade de conhecer o ofício daquele que está sendo entrevistado, porém quando estamos diante de uma pessoa tão polida, educada, dotada de um conhecimento vasto e uma humildade ímpar, mais do que aprender, a entrevista vira um agradável e valioso bate papo.

Dr. Dino Altmann em palestra no Performance Racing Trade Show – Foto PRI Media (Indianapolis, USA, 10.12.2015)

E esta foi a métrica da conversa que tive com o Dr. Dino Altmann, nomeado por Jean Todt, presidente da FIA, como presidente da Comissão Médica Mundial da FIA, passando a executar a nova tarefa já a partir deste mês de janeiro.

Além de muito divertido e construtivo, o bate papo que foi realizado via telefone, como forma de manter condições ótimas de proteção, permitiu conhecer um pouco mais do que efetivamente significa segurança em competições automobilísticas, algo que vai muito além de ter uma ambulância e socorristas em um autódromo.

Sendo assim, chega de papo furado e vamos efetivamente para a conversa que verdadeiramente interessa!

Planeta Velocidade) Como foi o seu envolvimento inicial com o automobilismo, uma vez que estamos falando de áreas tão díspares?

Dr. Dino Altmann) Eu sempre fui apaixonado por automobilismo desde criança, onde eu até quis ser piloto, mas segui para o ramo da medicina e quando a F1 veio para SP, eu me candidatei para uma vaga de médico na etapa brasileira e acabou dando certo, fui aceito e passei a atuar na F1 a partir do início da década de 90, unindo minhas duas paixões, medicina e automobilismo.

PV) Sua nova função na FIA demandará uma mudança para a Europa ou poderá desempenhá-la daqui do Brasil?

DA) Não haverá necessidade de mudança, pois poderei desempenhar minhas funções daqui, pois muitas reuniões serão realizadas por videoconferência, sobretudo porque este ano continuamos em meio a uma pandemia, onde até as viagens serão mais restritas.

Obviamente precisarei realizar mais viagens se comparado ao passado quando eu era apenas membro da Comissão Médica, mas a medida do possível, especialmente neste primeiro semestre, vou tentar resolver tudo sem precisar sair daqui.

Hoje já trabalhamos muito de forma virtual e no atual momento que o mundo vive, precisamos tomar todas as precauções e medidas de segurança possível, então, faremos bastente uso da tecnologia para nos aproximar e permitir realizar de forma bem satisfatórias, todo o trabalho que temos a fazer.

PV) Doutor, seu trabalho junto a FIA já vem de um longo tempo devido ao GP Brasil de F1, mas também pela vice-presidência da comissão médica mundial, no qual será agora presidente – isso fará sua rotina de trabalho no Brasil ser alterada?

DA) haverá uma alteração sim, pois há um grande trabalho a ser feito, o que demanda tempo e inclusive viagens, mas também estamos num momento de pandemia e isso fará com que boa parte do trabalho seja realizado de forma remota – temos bastante trabalho aqui no Brasil e também no meu consultório, mas buscarei realizar as atividades junto das que já executo, pois eu já atuava inclusive como vice-presidente e sendo assim, a carga de trabalho já não é pequena.

Ou seja, eu vou dimensionar minhas viagens de tal modo que eu consiga conciliar com minhas atividades aqui do Brasil, como Stock Car, Porsche Cup e o meu trabalho no meu consultório.

Foto: Divulgação

PV) Seu trabalho como presidente será iniciado em um período onde a saúde mundial está abalada e o automobilismo sofreu um grande baque no ano passado – qual o seu prognóstico para o automobilismo mundial neste ano?

DA) O automobilismo foi o primeiro esporte internacional que retomou suas atividades no período de pandemia e isso graças aos rígidos protocolos de segurança que foram criados. Isso só foi possível porque atuamos com medidas eficazes, que permitiu realizar o trabalho e as etapas dos diversos campeonatos com segurança.

Outro fator a considerar é que reduzimos bastante o volume de pessoas nas equipes (mecânicos, engenheiros, etc) e na organização das corridas, além de não haver convidados no paddock e público nas arquibancadas, não gerando aglomerações. Há também o fato das provas serem realizadas em um ambiente aberto e somados a isso, realizamos um grande volume de testagem para assegurar as condições de segurança, o que cria uma espécie de bolha nas categorias, dando condições efetivas de saúde para todos, de tal modo a conseguirmos realizar as provas das diversas modalidades do automobilismo mundial de forma segura.

Ou seja, criamos rígidos protocolos e estes foram aprovados pelos governos, o que nos permitiu retornar às atividades de forma segura.

Na Fórmula 1, por exemplo, realizamos a testagem a cada cinco dias e no momento que a pessoa entra no circuito, ela é também testada e só segue adiante depois do resultado negativo do teste – diferente disso, vai para uma quarentena e só poderá retornar às atividades quando um novo teste apontar negativo para o novo coronavírus.

Falando agora deste ano, as restrições serão absolutamente as mesmas do ano passado, seguindo os mesmos protocolos de 2020 – a minha visão e a visão que nós da FIA temos é que para este ano nada muda, independente da chegada da vacina, que vai ajudar muito, verdade, porém a testagem, os cuidados e as medidas preventivas não poderão ser deixadas de lado, sobretudo porque isso também depende das autoridades locais, que também possuem seus protocolos de segurança e temos também que estar alinhados com eles.

PV) Neste ano o senhor completa 20 anos à frente do GP Brasil – sua nova função da FIA lhe permitirá comemorar esta marca como diretor médico da prova brasileira de F1?

Foto: Débora Santos | BPress

DA) Exatamente! São 32 anos trabalhando na Fórmula 1 e 20 como diretor médico do GP Brasil, mas estes números a gente nem fala muito senão entrega a nossa idade (gargalhadas de ambos os lados).

Na verdade eu nem pensei que pudesse atuar por tantos anos no automobilismo – a gente percebe que o tempo passou e passou rápido, o que é um grande motivo de orgulho e eu pretendo comemorar sim, pois é uma data muito importante para mim.

PV) A FIA cobre o automobilismo mundial e sendo assim, temos provas de curta duração (como Stock Car, TCR, DTM, etc), passando por média duração, como é o caso da F1, mas também provas de longa duração, como no mundial de endurance, FIA GT, entre outros – há uma atenção diferente em relação a segurança e saúde destas diferentes provas?

DA) Sem dúvida nenhuma a preocupação da FIA é igual em todos os campeonatos, não há distinção, mas a nossa atuação nessas provas de campeonatos mundiais acaba sendo menor, pois são provas onde a atuação médica e de segurança já está em um nível muito elevado – os protocolos de segurança e integridade estão muito bem estabelecidos e certificados.

Nossa meta é que a mortalidade nestes campeonatos FIA seja zero e ainda que alguma fatalidade tenha ocorrido nos últimos anos, ela é a mais baixa da história. Porém há campeonatos menores, que não são reconhecidos por nenhuma confederação nacional de automobilismo [chamadas pela FIA de SN], onde o nosso cuidado tem sido maior e é onde estamos buscando levar o nosso conhecimento para ajudar estas federações locais.

Ou seja, nossa preocupação abrange não apenas os campeonatos maiores e mais vistosos, mas também campeonatos regionais e principalmente as categorias de base, que é onde o piloto é formado.

Mas há também uma outra frente onde queremos levar nosso conhecimento: melhorar o atendimento nos acidentes de trânsito, principalmente no que diz respeito ao atendimento no local do acidente.

Quando falamos de países desenvolvidos e grandes cidades do Brasil, o atendimento do SAMU e do Corpo de Bombeiros é realizado de uma forma magnífica, mas a realidade nas cidades menores e no interior do Brasil é outra, onde a qualidade do atendimento pré-hospitalar não é a mesma como a que temos na cidade de São Paulo, por exemplo, ocorrendo da mesma forma nos países em desenvolvimento e também nos mais pobres, que muitas vezes nem possui este tipo de atendimento prévio.

E neste sentido, a ideia da FIA é passar para o meio digital todos os procedimentos do nosso departamento médico e através da internet, levar este nosso vasto conhecimento aos países que mais necessitam e também para o automobilismo de base – esta tem sido uma das prioridades da nossa Comissão Médica.

PV) Jean Todt é alguém que dispensa apresentações no automobilismo mundial e o seu nome foi escolhido por ele e ratificado pelo Conselho Mundial da FIA – isso é ainda um motivo maior de orgulho?

DA) Ser escolhido para este cargo de grande prestígio por uma pessoa como ele, que conhece tão bem o automobilismo e suas dificuldades, é realmente um motivo de orgulho para mim, pois este é um cargo de confiança e esta confiança que ele depositou em mim vem de um bom tempo, pois nos conhecemos pessoalmente há pelo menos 12 anos ou mais e não apenas por termos amizade, mas sobretudo porque ele sabe do meu conhecimento.

Foto: Marcos Júnior Micheletti/Portal TT

Ao longo dos anos nós desenvolvemos uma grande amizade e esta amizade permitiu que ele percebesse o conhecimento que adquiri durante o tempo que atuo no automobilismo, o que fez com ele confiasse na minha pessoa para me colocar à frente de uma entidade tão importante dentro da FIA.

PV) Um dos seus antecessores é o doutor Sid Watkins, que revolucionou a segurança e integridade física e de saúde na Fórmula 1 e mesmo o senhor sendo tão competente como é,  não gera um certo frio na barriga?

DA) Para mim é um orgulho muito grande, porque eu tinha uma amizade muito próxima com ele, além de ter sido discípulo dele – nós tínhamos uma amizade muito grande.

Sempre conversamos muito, tanto quando ele esteve por aqui ou quando eu estive fora do Brasil – eu sempre o admirei muito, não apenas pelo seu conhecimento, mas também pela sua postura e pela pessoa que ele era – eu aprendi muito com ele.

Então, quando eu penso que estou ocupando o lugar que ele ocupou, é quase como um sonho, ainda mais porque sei que há outras pessoas competentes que poderiam ocupar este lugar.Então, espero apenas no futuro sair de cabeça erguida e poder dizer que honrei a poltrona que ele se assentou.

PV) Em comparação aos demais países, sobretudo europeus e os EUA, como o Brasil está posicionado em relação a segurança nas pistas?

DA) Nós avançamos muito ao longo dos anos nesse quesito e quando falamos em segurança do automobilismo, temos que lembrar que estamos falando de segurança dos equipamentos dos pilotos, da segurança dos autódromos e a segurança dos carros – nós evoluímos bastante nestes três aspectos.

Nas provas de âmbito nacional hoje não temos nenhuma defasagem em relação aos campeonatos de fora, porém nas provas regionais ainda temos um bom trabalho a fazer, algo que a CBA tem atuado de forma mais incisiva.

Os pilotos de campeonatos regionais precisam se conscientizar que necessitam de equipamentos pessoais seguros e que cumpram normas de segurança internacionais, pois já gastam um grande volume de dinheiro para correr, porém muitas vezes não levam em consideração sua própria segurança, utilizando equipamentos que já perderam a validade, ou que a aprovação não é adequada (não está de acordo com que a FIA preconiza) – isso ainda precisa ser corrigido.

Falando agora dos autódromos, nós tivemos uma grande melhora nas pistas brasileiras, mesmo que ainda hajam praças que precisam de melhorias – a Stock Car e a Porsche Cup por exemplo não competem em determinadas pistas e isso se deve ao fato de não atenderem às solicitações para que se tornassem mais seguras – hoje temos muito mais autódromos homologados pela FIA como classe 3 [que permitem sediar eventos internacionais] do que no passado e isso é um grande avanço.

Juntamente com a CBA a gente tem conseguido que muitos administradores de autódromos façam reformas em suas pistas, de tal modo a torná-las mais seguras e isto mostra a grande mudança de mentalidade no Brasil neste sentido

Há também o Luiz Ernesto [Morales], que é o engenheiro responsável pela realização do GP Brasil de Fórmula 1, que eu consegui colocá-lo na Comissão de Circuitos da FIA, que além do conhecimento que já possuía, faz com ele que agregue ainda mais experiência e expertise e isso torna-se um ganho.

Foto destaque Beto Issa/Divulgação

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