Entre Pits #46: Especial Mecânicas – Morgana Ritiele

26 de janeiro de 2021

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Editores Planeta Velocidade

Nesta edição do Entre Pits, entrevistamos uma mecânica, da equipe feminina “Go 3Girls” que participou das Mil Milhas Chevrolet Absoluta 2021.

Nossa entrevistada é Morgana Ritiele, uma moça que encarou um mundo totalmente masculino, para realizar seu sonho de ser mecânica. E no último final de semana fez parte da equipe M.I Motors Performance nas Mil Milhas Chevrolet Absoluta 2021, trabalhando com as pilotos Luciana Klai, Renata Camargo e Fernanda Aniceto. Além de dar total suporte para os outros dois carros do time, o Gol #84 e #111

Planeta Velocidade:  O mundo está cada vez mais globalizado, porém o preconceito parece ter aumentado em igual velocidade: como lidar com este fator numa profissão e esporte tão masculino?

Morgana Ritiele: Se eu falar que é fácil estarei mentindo, nós acabamos acompanhando essa evolução, acho que todo tipo de preconceito só vem de pessoas pobres de espírito. No meu caso desde que me formei trabalhei em 2 oficinas, uma delas lutei para vencer o preconceito mas não deu muito certo então preferi sair, na outra já entrei no escritório com intuito de dar um apoio na mecânica e poder aprender aos poucos afinal é de baixo que se começa, porém depois que começou a pandemia eu peguei covid e quando retornei ao trabalho, minhas funções passaram a ser limpar o chão e trocar a graxa das máquinas, não que isso fosse um problema e nem desmerecendo o trabalho da limpeza, porém eu queria aprender mecânica e não foi o que aconteceu.

PV. Não encontramos tantas mulheres fãs de automobilismo e menos ainda mecânicas: como é exercer esta função no automobilismo?

MR: Confesso que está sendo uma experiência única, mesmo eu nunca ter participado, consigo fazer tudo que precisa ser feito no Box. Já estou apaixonada, aponto que já quero trabalhar com automobilismo e conhecer mais a fundo

PV. O homem (sexo masculino) é o ser que mais faz gambiarras – mulher também faz?

MR: Não diria gambiarra, nós também fazemos ajustes técnicos. Dependendo da situação, se for necessário ambas as partes fazem.

PV. Ser mecânica, sempre foi opção ou essa vontade veio ao longo dos anos?

MR: Desde pequena eu sempre gostei de acompanhar os homens da minha família nas manutenções dos caminhões que eles trabalhavam, e mais ainda quando era meu pai, era meu momento de estar junto e aprender com ele. Mas depois que cresci me graduei em Marketing, tentando uma pós-graduação na área de e-commerce, porém em uma das empresas que trabalhei, eu tive um surto por excesso de trabalho e tive síndrome do pânico. Fiz um tratamento e na terapia comentei sobre essa vontade desde pequena da área automotiva, e ao final do meu tratamento, meu pai me presenteou com um curso de mecânica e depois disso eu renasci, mesmo com todas as dificuldades, nunca me senti tão viva e tão motivada como estou nessa nova fase da minha vida.

PV. A escolha da profissão, foi visando esse lado do trabalho em competição, ou isso veio posteriormente?

MR: Não, no começo quando fiz o curso só queria aprender a mexer mesmo por hobby, ao longo do curso fui me interessando cada vez mais, e a parte de competição eu realmente não tinha muito conhecimento e fui convidada para participar e confesso que estou amando cada detalhe, cada correria

PV. Qual categoria do automobilismo gostaria de trabalhar como mecânica?

MR: Sem dúvidas a Stock Car.

Agora vamos falar um pouco sobre as Mil Milhas Chevrolet Absoluta 2021!!

PV. Como foi receber um convite para integrar uma equipe, em uma prova tão respeitada e tradicional assim como as Mil Milhas?

MR: Nem estou acreditando que foi. Quem me convidou foi um grande amigo, ex-professor e ex-coordenador o Airton Eduardo tem uma participação muito importante desde quando decidi ingressar na carreira, quando começou a falar que teria um evento nem deixei ele terminar e logo disse que eu aceitava, quando ele explicou fiquei boba, sem acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.

PV. Um final de semana de corrida, já exige um belo preparo físico, quem dirá uma prova de 10 horas de duração. Como foi seu preparo para encarar a maratona do final de semana? O desgaste físico cobrou seu preço?

MR: Infelizmente eu trabalho em outro setor, então foi desgastante confesso, fiquei de manhã em alguns dias com o pessoal para acompanhar e entender o que precisava ser feito e a tarde voltava para o trabalho que tenho (as contas precisam ser pagas não é mesmo?), mas estando ali nem sentia cansaço.

PV. Você teve atuação direta não somente em um carro, mas sim em três. Conta para a gente qual função você exerce nos carros?

MR: Carregamento de balde (risos), estava ali fazendo algumas coisas básicas, mas importantes, tínhamos pouco tempo então cada segundo era valioso, então ajudei o Junior no abastecimento, na troca de pneus, por, mas que algumas pessoas olhavam eu sem fazer nada, eu estava sempre à disposição da equipe, quando o carro das meninas quebrou o bolachão da homocinética preferi deixar o pessoal que tem mais experiência fazer, tínhamos tempo, eu até sei fazer mas levo mais tempo.

PV: A atmosfera nos boxes pelo que vimos era muito boa, dancinha, coreografias e tudo mais (risos) , como foi trabalhar com o pessoal da M.I Motors Performance?

Sensacional já começou que eu invadi a oficina da equipe né (risos), cheguei aleatoriamente e sentei falando que ia ver o que estavam fazendo. Na corrida pessoal me acolheu muito bem, quando viram que eu estava tensa me ajudaram a relaxar dançando, cantando, brincando, antes do carro chegar me explicavam o que ia ser feito, me orientavam. Assim cada orientação ficou guardada, estou  pronta para a próxima.

PV. Ser mecânica de uma equipe cuja tripulação do carro é inteira de mulheres, gera uma pressão a mais?

MR: Gera um desafio imenso, principalmente para eu que não sou do mundo de competições, aqui tem muita troca de conhecimento, temos mecânicos homens que atuam nesse segmento a mais tempo e nos dão algumas orientações, isso sem dúvidas é maravilhoso, aqui realmente não tem preconceito.

Infelizmente nossa entrevista está chegando ao seu final, mas ainda temos mais algumas perguntas.

PV: Qual seu recado para quem quer ingressar na profissão, mas ainda tem aquele receio?

MR: Meus amigos sabem que sou bem realista com as situações, então além do clichê que todos dizem como, “tenha fé”, “não desista”, “corra atrás dos seus sonhos”, eu digo além, se prepara para se sujar, se machucar, suar, mas é satisfatória cada evolução. Eu ouvi uma frase em algum lugar e sempre levo ela comigo, seja qual for o seu sonho, se alguém próximo a você não te apoiar, vá sozinha(o) no caminho você encontrará pessoas com a mesma visão que a sua, e a caminhada fica melhor.

PV. E para o futuro o que você espera, pretende abrir algo próprio, trabalhar em uma grande oficina?

MR: Abrir o meu próprio negócio sempre foi meu sonho desde a primeira faculdade, mas confesso que trabalhar em uma grande oficina não seria má ideia, e aliás por conta da pandemia não estou na área quem quiser me contratar.

PV. Quando se fala em mecânico, logo se vem à cabeça, um barrigudinho de Chopp, com calça para baixo da cintura e com paninho sujo de graxa no ombro. Quando o cliente entra na oficina e se depara com uma mulher, qual a primeira reação da maioria?

MR: É engraçado, essa pergunta me faz lembrar de um meme, uma das oficinas que trabalhei era engraçado de ver a cara dos clientes quando eu ia atender e eles diziam quero falar com o mecânico e eu informava que estava falando com ela, achavam que eu não iria conseguir ajudar, claro não vou mentir que algumas vezes questionava o mecânico mais velho para ter certeza se era o que eu imaginava mesmo ou os testes eram adequados para aquele caso específico. Mas a surpresa era inevitável.

(O Planeta Velocidade frisa que essa pergunta foi apenas em caráter de descontração, tendo o maior respeito por todos os profissionais da área da mecânica)

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