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Planeta Giro #02 – BIA FIGUEIREDO

2 de abril de 2021

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Editores Planeta Velocidade

Nesta edição da nossa coluna de entrevistas, falamos com a piloto brasileira de maior expressão no esporte a motor nacional Bia Figueiredo, com passagens na Indy, Stock Car e no IMSA, para citar apenas algumas categorias que a tornam uma das mulheres de maior sucesso no automobilismo mundial.

Colaboração Francisco Brasil e Vivian Lanza

Infelizmente dessa vez não pudemos trazer uma conversa em vídeo ou áudio como tem sido as entrevistas anteriores, apesar das tentativas. Mas trazemos essa super matéria com a melhor qualidade possível e que nossos leitores merecem. Vamos lá?

Planeta Velocidade – Vamos começar pelo assunto mais legal: corrida! Você participou das 12 horas de Sebring pela IMSA na categoria GT Daytona, reeditando a parceria com Christina Nielsen e Katherine Ledge. Essa participação já estava previamente combinada ou veio “de surpresa”?

Bia Figueiredo – Eu mantive contato com a Katherine e Christina durante todo esse tempo. Era para eu ter corrido em Daytona 2019 com elas de Lamborghini, mas descobri que estava grávida. Estamos sempre trabalhando para corrermos juntas.  Eu sabia que elas estavam tentando me colocar nas corridas de Endurance da IMSA mas, receber a ligação de que iria acontecer em Sebring, foi uma grata surpresa. Até porque foi 18 dias antes da corrida!

PV – A punição tirou o pódio da sua equipe. Qual foi o toque que a gerou (não passou na transmissão) e como vocês lidaram com isso?

Bia – Na última relargada da corrida, faltando 8 minutos para o fim, o grid se juntou novamente e era a hora da definição da corrida. A Katherine estava brigando pela 4ª posição com o Andy Lally e, na curva 16, ela tentou uma manobra. O Andy não a viu e entrou na curva normalmente causando a colisão. Ela acabou batendo na roda traseira dele e pelas regras da categoria você tem que estar pelo menos meio carro do lado. Se ele tivesse visto daria o espaço para ela fazer a curva com ele. Logo depois, ela foi para 3º Lugar e sentimos o gosto de podium por alguns segundos. Enfim, coisas de corrida, mas demos todo o apoio a ela, pois era o momento de ser agressiva na pista! Estamos orgulhosas da conquista.

PV – Esse ano você correu de Porsche, sendo que antes a equipe já havia corrido de Acura e Lamborghini. Quais as diferenças entre os carros? Qual você mais gostou?

Bia – Acabei não andando na Lambo em 2019, infelizmente. O Porsche 911 GT3 R e o Acura GT3 Evo têm suas próprias tecnologias, medidas aerodinâmicas. Ambos são V6 com 550hp 4.000cc. O que eu mais pude sentir diferença é entre o motor aspirado do Porsche para o Bi- Turbo do Acura. Muda muito o jeito de eu calibrar a aceleração nas saídas de curva. Os procedimentos de botões internos também são bem diferentes. Um exemplo: não existe embreagem no Porsche. Foi a primeira vez, em 28 anos de carreira, que andei em um carro que não tem embreagem! É necessário apertar um botão para o carro se mover e simplesmente parar o carro e segurar no freio que o motor não apaga. A parte aerodinâmica e de distribuição de peso também são bem diferentes, mas conseguimos equilibrar o carro com os devidos ajustes no setup do carro.

PV – Vimos durante a prova que seu desempenho continua inalterado, entregando o carro bem à frente do que no momento em que pegou. Como foi sua preparação para manter a boa forma?

Bia – Eu estava com muita vontade de acelerar! Fiquei surpresa e feliz que já logo no primeiro treino eu já virei o mesmo tempo da Katherine, que está super ativa. Depois de mais de um ano sem guiar, minha alegria era imensa. Confesso que continuei assistindo corridas, treinei uma vez de kart e nada mais. Acho que depois de tantos anos correndo é como voltar a andar de bicicleta. Porém, tenho certeza que posso melhorar mais se tiver mais chances de correr com esse carro e equipe.

PV – Ainda sobre se manter em forma, você se tornou mãe recentemente. Como conciliar um treinamento de esporte de elite (que é seu caso) e o treinamento mental com a maternidade?

Bia – Eu sou uma mãe muito presente. Nunca tive babá, ainda mais considerando o atual momento da pandemia. Tenho uma rede de apoio e ajuda da família. Com a maternidade fiquei ainda mais prática. O que tinha 2 horas para fazer antes, agora preciso fazer em 1 hora. Não existe tempo para procrastinar, as mães são mais focadas. Ir para a academia e não perder tempo com nada. Estudar a pista enquanto o bebê dorme. E assim vai.

PV – Dizem que um piloto quando se torna pai perde meio segundo por volta. E a piloto mãe?

Bia – Em Sebring eu me senti muito bem. É uma corrida de endurance, diferente das de 40 minutos que tinham na Stock, porém fui muito bem. Conheço pilotos que melhoraram ao virarem pais. No fim do dia, pelo menos comigo, eu continuo colocando o capacete e não penso mais em nada, além do que tentar ser mais rápida e mais rápida. Isso não muda.

PV – Agora fora das pistas, você foi anunciada pela CBA como representante do programa Girls On Track da FIA. Em que consiste esse novo cargo?

Bia – Eu acabei conhecendo muita gente da FIA Women nesses anos de automobilismo. Os projetos deles sempre foram muito focados somente na Europa. Quando eles me falaram da Seleção de jovens pilotos para a Ferrari Academy, eu enchi a paciência deles que tinham que colocar pilotos brasileiras lá, eu sempre lutei muito pelo automobilismo e pela valorização dos nossos pilotos. Deu certo a minha insistência, e foram selecionadas a Antonella Bassani e a Julia Ayoub. Dentre os 70 curriculum, eles escolheram 20 para a primeira fase. As nossas brasileiras foram espetaculares e ficaram entre as 4 melhores, tendo a chance de andar em Maranello e de ter um curso da Ferrari Academy. Quando o Giovanni Guerra se tornou presidente agora no começo de 2021, ele me fez esse convite oficial para ser a representante da CBA nesse programa. A ideia é incluir mais projetos do FIA Women no Brasil para mais mulheres virem para várias áreas do automobilismo e tentar incluir mais jovens pilotos em programas como o FIA Girls on Track.

PV – Nessa função na CBA, o que você acha que pode ser feito em curto prazo para a inclusão de meninas no esporte? E mais pra frente quais seriam as ações?

Bia – No caso da FIA Girls on Track, precisaríamos de pelo menos 4 vagas. Temos 4 meninas com a idade entre 12 e 16 anos que são talentosíssimas. São elas: Antonella Bassani, Julia Ayoub, Maria Eduarda Nienkotter e Aurelia Nobels. Falo dessas, pois correm nos principais campeonatos no Brasil e no mundo. Mas tenho certeza de que temos mais talentosas pilotas em pequenas cidades por aí. Esses talentos terem oportunidades de chegar em categorias top só vão incentivar mais e mais mulheres no automobilismo.

PV – Além de trabalhar pela inclusão das mulheres no esporte, você pensa também em tentar estender essa ajuda para outras “minorias”, como negros, comunidade LGBTQ, comunidades de baixa renda que não tem como bancar uma carreira? Tem algum projeto ou ideia na CBA que paute isso?

Bia – Por que não? O Hamilton faz um excelente trabalho na inclusão de negros e a F1 na comunidade LGBTQ. Serão passos que terão que acontecer algum dia, e eu quero usar a minha influência para acelerar esse processo. A CBA faz trabalhos de inclusão para qualquer jovem fazer a Escola Brasileira de Kart e ter uma carteira de piloto por um custo baixo. O Instituto Família Barrichello também tem uma ótima iniciativa com crianças carentes no kart.

PC – E as próximas corridas? Segue nas provas longas do IMSA? Tem algum convite ou plano para alguma categoria no Brasil?

Bia – Meu plano no momento é focar fora do país. Se fizer as próximas duas etapas do Endurance da IMSA (Watkins Glen e Petit Le Mans) será fantástico, mas sei que eles precisam de novos patrocinadores para terminar o ano. Adoraria voltar a correr no Brasil em 2022, porém hoje eu vivo um dia após o outro e só agradeço as oportunidades que surgem. Assim como a torcida e o carinho das pessoas que acompanham minha trajetória há tanto tempo.

Fotos Arquivos pessoais/Bia Figueiredo

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